Durante décadas, o Brasil foi conhecido por revelar os laterais mais talentosos e ofensivos do planeta.
Nomes como Cafu, Roberto Carlos, Jorginho e Marcelo marcaram gerações e transformaram a função em um símbolo do futebol brasileiro.
Mas o futebol moderno mudou — e com ele, o papel dos laterais também.
Hoje, a Seleção Brasileira busca se adaptar a um cenário em que o equilíbrio entre ataque e defesa é fundamental, e em que a inteligência tática vale tanto quanto o talento.
Sob o comando de Dorival Júnior, a Seleção vive um momento de transição tática.
Os laterais deixaram de ser apenas peças de apoio ofensivo para se tornarem elementos centrais no sistema coletivo.
A função, antes quase romântica, agora é pautada por disciplina, posicionamento e versatilidade.
O técnico tem procurado laterais que saibam ler o jogo, interpretar espaços e tomar decisões rápidas — mais do que apenas correr pela linha de fundo.
Um bom exemplo dessa nova filosofia está na forma como Dorival utiliza Danilo.
Longe de ser o lateral explosivo dos anos 2000, Danilo é hoje um jogador de construção, que atua por dentro e ajuda na saída de bola.
Sua leitura tática permite que o Brasil tenha superioridade numérica no meio-campo, algo essencial no futebol atual.
Ele representa o lateral moderno — menos dribles, mais consciência.
A Juventus, seu clube, já o transformou nesse tipo de atleta, e a Seleção colhe os frutos dessa evolução.
No outro lado, surge uma geração que tenta equilibrar as duas funções: atacar e defender com a mesma eficiência.
Renan Lodi e Caio Henrique, por exemplo, são laterais com boa técnica e visão de jogo, capazes de apoiar com cruzamentos precisos e recompor rapidamente.
Eles simbolizam a tentativa de manter viva a essência ofensiva do futebol brasileiro, mas dentro dos limites da nova realidade tática.
O destaque recente, porém, vem de nomes como Yan Couto, que representa o futuro da posição.
Rápido, técnico e inteligente, ele atua como um “lateral híbrido”, capaz de atacar por fora ou se infiltrar por dentro como um meia.
Sua evolução no Girona, da Espanha, mostra como o futebol europeu ajudou a lapidar o talento brasileiro, tornando-o mais completo e estratégico.
Essa transformação dos laterais reflete uma mudança mais ampla no futebol mundial.
Antigamente, o jogo pedia amplitude e cruzamentos constantes.
Hoje, o lateral precisa pensar como um construtor — participar da criação desde o início, oferecer opções de passe e até controlar o ritmo do jogo.
A Seleção Brasileira segue essa tendência, buscando um modelo que una a paixão ofensiva do passado com a eficiência e o controle do presente.
Outro ponto essencial é o impacto do sistema defensivo.
No futebol atual, não existe mais espaço para laterais que “apenas atacam”.
A recomposição rápida e a leitura dos espaços são tão importantes quanto a qualidade com a bola nos pés.
Dorival valoriza laterais que saibam fechar linhas, proteger a zaga e se comunicar com os volantes.
Nesse sentido, jogadores como Emerson Royal ganham espaço por sua consistência defensiva e maturidade tática.
Historicamente, o Brasil sempre se orgulhou de laterais criativos — jogadores que desequilibravam com dribles e passes improváveis.
Hoje, o país busca o mesmo brilho, mas dentro de uma estrutura mais controlada.
O lateral moderno precisa ser equilibrado, multifuncional e mentalmente preparado para alternar funções em segundos.
Em jogos recentes, o Brasil tem mostrado sinais de amadurecimento nesse aspecto.
As inversões de posição entre Danilo e Bruno Guimarães, por exemplo, demonstram como a Seleção tenta confundir o adversário e dominar o meio-campo.
É uma evolução clara, que mostra que o talento brasileiro pode se adaptar ao contexto europeu sem perder sua identidade.
O maior desafio de Dorival será encontrar a harmonia entre inovação e tradição.
Manter o espírito criativo que sempre caracterizou o futebol brasileiro, mas dentro das exigências do futebol moderno.
E os laterais, outrora os heróis das jogadas plásticas, são agora os arquitetos silenciosos de um jogo mais pensado e coletivo.
O futuro da Seleção depende dessa transição bem-sucedida.
Se conseguir unir a inteligência tática de Danilo, a intensidade de Yan Couto e o talento natural de Lodi, o Brasil terá novamente laterais à altura de sua história — não apenas pelos dribles e cruzamentos, mas pela capacidade de pensar o futebol com a mesma genialidade que sempre o definiu.
