Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu um dos períodos mais complexos e sombrios de sua história: a ditadura militar.
Foi um tempo de censura, perseguições e silêncio forçado — mas também de vitórias em campo.
Enquanto o país mergulhava em tensões políticas e sociais, a Seleção Brasileira se tornava um símbolo de orgulho nacional.
E é justamente nessa contradição que está uma das histórias mais fascinantes do futebol brasileiro: como o regime usou a Seleção como ferramenta de poder, propaganda e controle emocional do povo.
Quando os militares tomaram o poder em 1964, o futebol já era parte essencial da identidade brasileira.
Desde a conquista do Mundial de 1958, o país vivia o futebol como uma extensão da própria alma — uma válvula de escape diante das dificuldades.
Os generais entenderam rapidamente esse poder simbólico.
Controlar a Seleção significava controlar o humor do país.
E assim, o futebol tornou-se um palco político.
A Copa do Mundo de 1970 foi o auge dessa fusão entre esporte e regime.
Sob o comando de Mário Zagallo, o Brasil formou talvez o time mais talentoso da história, com Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Clodoaldo e Rivelino.
A equipe encantou o planeta, conquistando o tricampeonato no México e consolidando o “futebol arte” como marca registrada do país.
Mas, nos bastidores, a ditadura aproveitou cada minuto dessa glória para fortalecer sua imagem.
O governo militar transformou o título mundial em propaganda política.
As imagens de Pelé levantando a taça Jules Rimet e o hino nacional ecoando no Estádio Azteca foram usadas em campanhas oficiais, sob o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
A mensagem era clara: o país vitorioso nos gramados simbolizava o sucesso do regime.
A Seleção era apresentada como a prova de que o Brasil “caminhava para frente”, ignorando a repressão, a tortura e o medo que se espalhavam fora dos estádios.
Os jogadores, em sua maioria, evitaram se posicionar politicamente — muitos por medo, outros por pragmatismo.
Pelé, por exemplo, tornou-se um ícone mundial, mas sempre manteve distância de debates políticos.
Outros, como Gérson e Rivelino, limitavam-se a falar de futebol, preferindo não desafiar o sistema.
A exceção notável foi Sócrates, anos depois, que já em tempos de abertura política se tornaria símbolo da resistência através da “Democracia Corinthiana”.
O governo militar também buscou controlar a narrativa por meio da mídia.
A censura era constante, e qualquer crítica à Seleção ou ao regime podia ser silenciada.
As vitórias da equipe eram exibidas em transmissões oficiais, enquanto notícias sobre prisões e desaparecimentos sumiam dos jornais.
O futebol se tornou um ópio social — um anestésico que distraía a população e reforçava o nacionalismo artificial.
Mas, ao mesmo tempo, o campo era um espaço onde o povo se via representado.
Por mais que o regime tentasse apropriar-se da Seleção, a magia do futebol escapava ao controle dos generais.
Cada gol de Pelé, cada drible de Jairzinho e cada sorriso de Rivelino eram gestos de liberdade em meio ao autoritarismo.
O futebol brasileiro, mesmo usado como propaganda, continuava sendo o território onde o povo sentia que ainda podia sonhar.
Com o passar dos anos, a relação entre o regime e o futebol foi se desgastando.
Após 1974, o país mergulhou em crise econômica, e a Seleção já não rendia o mesmo.
As derrotas passaram a refletir o desânimo nacional.
A magia de 1970 havia se transformado em nostalgia, e o discurso patriótico começou a perder força.
A redemocratização nos anos 80 trouxe uma nova consciência: era preciso separar o futebol da manipulação política.
Hoje, a lembrança da ditadura serve como alerta.
A história mostra que o futebol, por sua força popular, pode ser tanto um instrumento de união quanto de dominação.
A Seleção Brasileira, símbolo máximo da paixão nacional, já foi usada para calar vozes — mas também para inspirar esperança.
É um lembrete de que o esporte, mesmo em tempos sombrios, tem o poder de resistir e de revelar verdades que nem o regime mais autoritário pode esconder.
A Copa de 1970 permanece, até hoje, um paradoxo: o auge esportivo e o abismo político.
Foi o momento em que o Brasil mostrou ao mundo o melhor de si dentro de campo, enquanto vivia o pior fora dele.
E essa dualidade — entre arte e opressão, entre glória e silêncio — é uma das páginas mais complexas e simbólicas da história da Seleção.
No fim, a ditadura acabou.
Mas o futebol continuou.
E com ele, a lembrança de que, mesmo quando o poder tentou se apropriar da bola, foi o povo que continuou a jogar.
